terça-feira, 9 de junho de 2015

Intolerância a lactose em bebês? Provavelmente não!

Com certeza você já leu na web a palavra lactose. Dieta sem lactose. Iogurte sem lactose. Mas o que é lactose? Seria bom tirar das crianças também?

Lactose é um dos carboidratos do leite. A grosso modo, um açúcar presente em leites. 

Leite materno, por exemplo, tem muita, muita lactose.

Nosso corpo, para digerir esse açúcar, usa enzimas que estão presentes no nosso organismo. Essas enzimas moram nas vilosidades intestinais. Vou mostrar:

Lindas vilosidades no enterócito - isso é uma foto de dentro de um intestino!

Pra ficar mais simpático, desenhei! Eu sei, sou melhor nutri que desenhista....


Quando um bebê está tranquilo, vivendo a vida bebelística, a lactose é uma benção pra ele. É sim. Lactose, quando é “quebrada” pela enzima, vira galactose e ajuda constituição de galactopeptídeos integrantes do sistema nervoso central. Ela também ajuda a acumular água livre para reserva de termo-regulação, através da sudorese. Já viu como bebês suam?

A lactose também está associada à acidez das fezes e à formação da microbiota intestinal específica (predominância de lactobacillo e bifidobacteria, probióticos, o must da saúde atualmente), o que pode ser importante para impedir o crescimento de bactérias indesejáveis no intestino do seu bebê, além de favorecer a absorção do cálcio, fósforo e de outros minerais


Mas existe a intolerância a lactose.

Bom, mas se no leite humano, o específico para bebês, tem uma porção de lactose, seria humanamente impossível que todos ou a grande maioria dos bebês fossem intolerantes, certo? A natureza não ia errar tanto assim.

Certo. Certíssimo. Intolerância à lactose primária, a comum, dessas de adultos (que tomam leite e saem correndo pro banheiro), é realmente (muito, muito) difícil aparecer em crianças. Lactose é feita para humanos novos. Estamos programados pra isso. Existe sim, um pequeno percentual da população que tem intolerância à lactose congênita, mas se for seu caso, você já saberia. A Deficiência Congênita é uma manifestação extremamente rara e herdada geneticamente, sendo autossômica recessiva. Resulta de uma modificação do gene que codifica a enzima lactase, cuja incidência é de 1:60.000 (MATTAR e Mazzo, 2010). Se for o caso do seu filho, provavelmente você saberia desde muito, muito novinho.

Só que percalços acontecem, e essas mesmas vilosidades podem diminuir. Imagina ações que atacam o intestino: tomar antibiótico, tem uma virose, diarreia, rotavírus. Elas ficam “carecas”.
Vilosidades carecas, menos enzima disponível, lactose passando direto, quase sem absorver!

Durante o tempo que esse bebê ou essa criança recupera a flora intestinal, ele está intolerante a lactose, pois não consegue fabricar mais tanta enzima lactase. Mas isso é passageiro, e é chamada intolerância à lactose secundária. Repito, é passageiro.

Outras situações também atrapalham essa flora ideal. Uma alergia alimentar, por exemplo. Alergia alimentar com sintoma gastrointestinal dá uma judiada na flora intestinal. Imagina uma criança com alergia ao leite de vaca (alergia à proteína do leite de vaca, não à lactose – alergias são reações à proteínas, e não a carboidratos). As proteínas acabam lesionando as vilosidades e a criança ficando não só alérgica, mas também intolerante. E aí, algumas crianças tem diarreias constantes (e outros sintomas) e, ao tirar a lactose, a criança melhora (da diarreia). Aí que mora o perigo da confusão.

A criança melhora porque tiramos o carboidrato que ela não consegue digerir pois não tem enzima pra isso, já que o lugar onde essa enzima estaria não está mais lá. Aí, acontece essa melhora. Mas, se a criança for alérgica, tirar só a lactose não adianta nada. E é extremamente perigoso.... e tem criança alérgica que toma fórmula sem proteína do leite de vaca e com lactose, sabiam? Aptamil Pepti e Althéra são exemplos dessas fórmulas, com proteína extensamente hidrolisada e com lactose.

Mas Karine, se você está dizendo que bebês não tem intolerância à lactose, e as fórmulas sem lactose, pra que servem?

São para bebês com intolerância secundária a lactose. E depois, precisam ser trocadas por fórmulas com lactose. Porque eu não falei, mas a produção dessa enzima é sobre demanda. Se não precisar fabricar lactase, o corpo humano, esperto e econômico que só ele, vai parar de fabricar. Simples assim. Para que o bebê volte a produzir, precisa desse estímulo.

Karine, eu amamento, e percebi que as fezes do meu bebê ainda estão amolecidas após a virose. Acho que ele está com essa intolerância secundária. E agora?

Natureza, sábia natureza mandou o leite materno não só com a lactose, mas também com enzimas e probióticos, substâncias vivas que auxiliam na digestão, e principalmente, na renovação desse lindo enterócito! Continue amamentando sem medo de ser feliz! Essa é a melhor coisa que você pode fazer para o enterócito do seu bebê.

Se seu bebê tem sintomas e você acha que ele tem problema com o leite, procure um gastro (se tiver sintoma gastrointestinal) ou um alergista. Depois, procura uma nutri bacana pra te ajudar com a alimentação. Diagnóstico errado, indicação de produto errado pode atrapalhar muito a vida de quem tem que tomar cuidados especiais com a alimentação!

Portanto, mães de bebês sem alergias com sintomas gastrointestinais, aproveitem a lactose! Ela foi feita pra eles também ;)

P.S. estamos falando de lactose de leite materno e de fórmula infantil. Nada de leite de vaca para menores de um ano ;)

P.S. 2: mais um motivo pra amamentar ;)