sexta-feira, 8 de julho de 2016

E a introdução alimentar.... parece que não acontece!

Você se preparou. Em geral, acontece mais com quem segue a cartilha certinha: vou esperar os seis meses para fazer a introdução alimentar. Escolhe os alimentos a dedo, aquela receita maravilhosa, faz, investe tempo (e olha que cozinha não era o seu forte!).
E o bebê simplesmente não se interessa.

Bom, você pensa: pode ser que amanhã melhore. Só que a reação da criança, vai piorando. Vai de disfarçar veemente, olhando para o lado enquanto, bater a mão na colher, chorar ou achar que o cadeirão tem espinhos.
Como eu fujo daqui?

Alguns bebês simplesmente podem não estar preparados para comer. E como aos seis meses estão mais ativos, mostram com mais eficiência sua particular situação do que um bebê mais novo. A preparação para comer se dá por sinais fisiológicos. Primeiro eles olham muito, para nossas bocas, enquanto a gente come. Sentam-se sozinhos. Pegam os alimentos. Conseguem mastigar. Por fim, engolir.

Apesar do marco de idade que em geral, orientamos, nem todo bebê está pronto para comer aos seis meses, e nem todo bebê não está pronto para comer aos 5 meses e meio. É, como a maior parte das coisas da vida, individual e peculiar.
Não gostei muito mãe! 

E quando isso acontece, umas das principais dúvidas e receios dos pais é sobre a nutrição do bebê enquanto ele não come sólidos. Vamos lá, discorrer sobre isso: a introdução alimentar passa por duas principais razões de ser: acertar alguns nutrientes para as necessidades dos bebês, especialmente Ferro e para o bebê conhecer os alimentos.
A necessidade de Ferro do bebê realmente aumenta quando chega os seis meses. Passa de 0,27mg para 11mg por dia. A introdução alimentar também serve para aumentar a oferta de Ferro.

Mas essa necessidade de Ferro varia entre muitos e muitos fatores. Nós temos reservas de Ferro, e essa reserva começa ainda na gestação, principalmente no final da gestação. Logo, quem nasce a termo, na data que o bebê escolhe, tem uma maior reserva de Ferro.
Quem esperar 2 minutos para camplear o cordão umbilical como é solicitado pela Socidade Brasileira de Pediatria (veja mais nesse post), tem mais reserva de Ferro.
Quem não deu leite de vaca para o bebê antes do primeiro ano de vida, tem mais reserva de Ferro. Quem nunca teve que fazer um exame de sangue (quem me contou foi uma hematologista pediatra super querida, médico especialista em “sangue”) tem mais reserva de Ferro.
E não adianta apenas ofertar Ferro. O Ferro precisa ser absorvido.
E o Ferro do leite humano... ahhhhh, ele é incrível. O ferro contido no leite materno é altamente biodisponível (50%) podendo chegar a 70% . Fórmula à base de leite de vaca varia entre 10 a 20%.(GIUGLIANI, 2000; OSÓRIO, 2002; OLIVEIRA, 2005; RAMOS, 2008). Nem uma carne, fígado ou outro alimento tem um Ferro tão biodisponível assim.
E, pensando na orientação da maior parte dos médicos (só caldo da carne, sem a carne, que é uma ótima fonte de Ferro), se todos seguirem essa premissa, todos os bebês ficariam anêmicos mesmo comendo bem a introdução alimentar. O organismo tem certas peculiaridades que nunca vamos descobrir. Só sei que em geral, ele sabe o que fazer para viver bem. Precisamos confiar no organismo.

Se a questão for o Ferro, avaliar esses pontos. E se necessário, suplementar.

Mas o maior risco do bebê que não come está longe de ser o risco nutricional, como mostrou o estudo feito por Chatoor em 2004, que mostrou que o conflito nas refeições tem uma forte correlação com baixo desempenho das crianças em testes de desenvolvimento, ao contrário de baixo peso (a criança não comer até enfim, atrapalhar seu ganho de peso!) . Olha que maluco. Ficar muito magro por não comer é melhor do que ser forçado a comer, pensando no desenvolvimento do bebê.

 Daí, com a preocupação e com a recusa, aparecem os riscos comportamentais de alimentação. Não come? Vou bater a papinha no liquidificador. Não come? Vou botar vídeo pra ver se come. Não come? Vou colocar aqui um alimento.. hum... mais “gostoso” no meio, para ver, afinal, se come.

Ainda estamos na cultura do “o importante é que coma, não importa como”. Pena isso.
Porque a introdução alimentar serve, principalmente, como um marco de relacionamento com a comida. O que é comida pra mim? O que são as comidas que eu gosto.
Afinal, se essa introdução for ruim, ruim no sentido de falta de prazer, o início da vida alimentar daquela criança não foi como deveria ser. Bebês parecem reter memórias emocionais e ficam assustados ao depararem com um alimento que lhes recorde uma sensação ruim, como a de ser forçado a comer. E eles tendem a generalizar os alimentos por cor ou aparência. Quando recebemos crianças maiores no consultório com a queixa de “não come”, muitas vezes, já começou complicado.

Pois eu vou contar para vocês, que é mais importante, na introdução alimentar, como se come do que o quanto se come.
Sobre conhecer os alimentos: você sabe como é um relacionamento. A gente paquera (ainda se fala isso? Rsrs). A gente namora. A gente se aproxima.
Ainda não estou preparada para esse tipo de relacionamento

O relacionamento alimentar se dá mais ou menos da mesma forma. Seu bebê sentiu sabores enquanto estava na sua barriga. Depois, sabores diferentes no leite materno. Ele vê você comer. Ele vÊ que, ao contrário da experiência dele, quando você come, o alimento “some” (e o peito ou a mamadeira ainda está lá! Como assim????)
Se esse relacionamento é, desde o início, permeado de sensações estranhas, de insegurança, de certo tipo de violência (sim, forçar a comer é uma violência), esse relacionamento já começa abusivo.
Atividade feita em grupo de encontro de pacientes para sentirem um pouco sobre o que é "comer no escuro"


Sendo assim, o que eu posso fazer para ver meu filho comer melhor, ou para ajuda-lo a ter experiências mais positivas??

A primeira resposta é: paciência. Persistência.

Deixe o bebê explorar o alimento na íntegra. Como no BLW  ou na alimentação participativa. Deixe-o ter as primeiras experiências alimentares ainda no seu colo. Depois ele vai para o cadeirão, quando estiver pronto. Não faça seu bebê passar fome para aceitar os alimentos. Bebês não entendem que comida é para matar a fome. Portanto, ao contrário que que fazemos com as crianças maiores, que é organizar a rotina alimentar com diferença de horários (vejamais sobre isso aqui) os bebês podem sim, mamar, depois de uma recusa. É da natureza do bebê comer mais e mamar menos com o tempo. Não precisamos fazer nada para que isso aconteça. Basta esperar. Enquanto isso, alimentar com o leite.

Deixar o bebê morrendo de fome para tentar dar a alimentação sólida vai ter um resultado: muito choro, exaustão e por fim, o bebê vai dormir. Seja gentil com ele. Ele não sabe ainda, como é comer. Mostre o caminho com calma.
Não tem nada a ver com bebê quem mamam em mamadeira ou mamam no peito. Tirar o aleitamento não vai ajudar em absolutamente nada.

Fique firme nas decisões que lhe cabem: escolher o que dar, quando dar, como dar. Não abra mão das suas responsabilidades alimentares a troco de mais uma colher. Por que? A troco de quê? Uma colherada de comida é uma colherada de comida. Nada além disso. A nutrição do bebê, na maior parte das vezes, até o primeiro ano, vem principalmente do leite. Esse sim, indispensável para seu desenvolvimento. O resto, te garanto, ele vai aprender a comer.

Mas no tempo dele! E você vai estar lá, pronta para acompanhar suas aventuras alimentares. Com resiliência de saber que nós, afinal, não podemos controlar tudo. E o seu bebê, que nada controla, a não ser o quanto de alimento que ele coloca para dentro do corpinho, quer reinvindicar seu direto, de ser, afinal um indivíduo que deve, acima de tudo, ser respeitado. E amado!



Aos poucos, no tempo delas, as coisas vão acontecendo!

*bebês muito baixo peso precisam investigar causas. Alergias alimentares, dores para comer, podem ser motivos de recusa e precisa ser avaliado. Anemia já instalada também. Na dúvida, procure uma nutricionista!!!

* Gratidão enorme às queridas Ariadne, mãe da Lorena, e Luciana, mãe da Isabela, #pequenasdatiaká, que me deram as fotos para ilustrar o texto. Vocês são incríveis em conseguir esperar, confiar, estimular. As filhas de vocês tem muita, muita sorte! Gratidão por me deixar fazer parte!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

"Coitadinho! Quando comer, vai se acabar"! Será?


Historicamente o ser humano busca o prazer em sua rotina. E essa liberação de prazer, bioquimicamente falando, está ligado intimamente à um grupo de substâncias liberadas no cérebro: serotonina, endorfina, dopamina.

Algumas substâncias ou situações podem aumentar o nível dessa liberação: estar com quem se ama. Brincar. Fazer o que se gosta. Carinho. Comida boa. Comida não tão boa para o corpo, principalmente as mais estimulantes, como açúcar, gordura e sal. Drogas ilícitas ou lícitas (como remédios para depressão, álcool).

A grande maioria das pessoas consegue usar essas substâncias que liberam um nível maior e mais rápido desses hormônios e usufruir esse prazer, sem necessariamente ser um problema para sua saúde. Muitas pessoas bebem socialmente. Muitas pessoas consomem as “besteiras” de vez em quando, e tudo bem, sem problemas! Talvez você, adulto que lê esse texto, coma coisas apenas pelo bel prazer de comer. E isso é saudável (nunca se entregar ao prazer não é saudável!).

Mas tem a turma que abusa. E o abuso pode trazer consequências. Consequências variadas! Um corpo não sadio e um desequilíbrio de nutrientes consumidos (pense em alguém que bebe com frequência e tem seu estoque de vitamina B diminuído, ou alguém que come tantos doces que não sobra apetite para os vegetais, frutas e legumes) ou consequências graves (alcoolismo, onde grande parte das calorias vem do álcool, e isso é pernicioso, inclusive socialmente ou uma alimentação baseada em açúcar, onde as calorias vem basicamente do açúcar e daí, falta muito nutriente para manter uma vida saudável e isso é pernicioso para a saúde do indivíduo e custoso para a família, que e preocupa).

Nossos filhos provavelmente vão entrar em contato com álcool na vida deles (arghhhh rsrs). E vão entrar em contato com o açúcar. E é sobre o açúcar que vou me ater.
O que eu posso fazer agora, para ajudar o meu filho a utilizar essas duas substâncias que liberam prazer de uma maneira a não atrapalhar a vida dele?

Sobre o álcool, temos muitos dados. Sabemos, com certeza, que adiar o seu primeiro consumo faz muita diferença. O uso de precoce de bebidas alcoólicas pode ter consequências duradouras. Aqueles que começam a beber antes dos 15 anos apresentam predisposição quatro vezes maior de desenvolver dependência dessa substância do que aqueles que fizeram seu primeiro uso de álcool aos 20 anos ou mais de idade.

Parece que temos um tempo de maturidade mais ou menos ideal para que possamos ter responsabilidade sobre o consumo do álcool. Então, evitar o consumo até a vida adulta parece ser o caminho.

Em relação ao açúcar, e quando eu digo açúcar, estou falando do açúcar dos doces e guloseimas, sugerimos adiar a introdução após o primeiro (idealmente segundo) ano de vida. Bem mais cedo, olha só rsrsrsrs.

O estímulo do paladar do açúcar é tão potente, que a tendência de ficarmos apaixonados e os outros sabores não interessar muito quando pequenos é grande. Na realidade, não é só o que comemos, mas principalmente o que deixamos de comer que atrapalha nossa saúde.


Podemos ser perfeitamente saudáveis comendo nossas porções de frutas, vegetais, cereais, etc, e  um docinho de sobremesa eventualmente.

"Por mim tá tranquilo comer esse açúcar aí depois dos dois anos"

Mas se você é mãe ou pai, sabe como é complexo ensinar uma criança a comer bem e de tudo. Precisa de tempo, investimento. Se jogar contra, oferecendo logo cedo um alimento que tem um alto poder de estímulo palatável, vai ficar difícil. É complexo apreciar a doçura de uma maçã quando se chupou 3 pirulitos antes. E não vale me dizer que a criança come super bem um prato de arroz e feijão. Arroz e feijão é bom, mas não é suficiente.

E antes dos dois anos, a vontade e a necessidade de introduzir açúcar na vida da criança é do ADULTO. Como o adulto sabe que esse é um prazer especial, quer proporcionar à criança. Mas a criança, antes do segundo ano de vida, não tem “vontades específicas”. Ela é alimentada, e aceita de bom grado a maior parte dos alimentos que lhe é oferecido, nem que seja pra cuspir depois. Ela quer provar. Mesmo o tampo da mesa, ou o sabor do controle da TV.  Veja novamente o caso do álcool: ninguém tem dó de não servir a cerveja pra criança de 1 ano. E ninguém se espanta se um adulto degustar um copinho de cerveja em uma festa infantil, mas nega a criança. E nenhuma criança ficou “aguada” porque queria tomar um gole dessa cerveja, Mas ao se tratar de refrigerante, aquele campeão de açúcar, as frases vão do : “Tadinho”; “que dó” até “quando ele crescer vai tomar litros de refrigerante enlouquecidamente”

Provavelmente não vai. Claro que a criança vai crescer. E vai ter curiosidade. Pelo açúcar, socialmente aceito por todos. Pelo álcool, socialmente aceito entre os adultos. E olha, a vida não será fácil em relação a oferta. Vivemos num mundo obesogênico completamente disforme entre as informações que recebemos (e que nossos filhos vão receber também). Doces estão por TODAS as partes, na maior parte das vezes acompanhado pelo marketing do personagem favorito da criança. Doces estão relacionados a passeios e tempo com a família. A TV passa propagandas incansavelmente. As crianças em geral estão comendo muito pior do que antigamente, por esse excesso de oferta de alimentos não saudáveis.
Ao mesmo tempo, precisa ter a barriga negativa da menina famosa, o corpo sarado do ator. Tá fácil não.

Auto estima baixa por conta de modelos irreais, necessidade de mais estímulo para o prazer, enorme disponibilidade de alimentos ricos em açúcar e voalá: a realidade cruel que estamos vivendo: comer tá difícil.

Mas a gente tem o que fazer. Adiar esse primeiro contato pode ser o caminho para que esse relacionamento criança x açúcar seja mais equilibrado. E equilíbrio se dá pra todos os lados: se eu como menos açúcar sobra necessidade calórica para que eu me interesse pelos outros alimentos servidos pela minha família!

E você acha que é fácil tomar esse posicionamento, de adiar a introdução de açúcar? Entre em uma festa infantil com um bebê no colo e veja legiões de adultos querendo enfiar goela a baixo um algodão doce, só um brigadeiro, que mal faz um gole de refrigerante?

Não, matar não mata. Mas pode sim, prejudicar uma educação nutricional futuramente. O que custa esperar?

Quando a criança falar: por favor tio, me dê esse brigadeiro, dê!!! Antes disso, pra quê?


P.S: tem crianças que comeram doces na primeira infância que não amam doces na vida adulta. Tem adolescentes que beberam alcool e não bebem quando adultos. Tem adultos que bebem antes de dirigir e não batem o carro. Tem pessoas que fumam a vida toda e não tem câncer de pulmão. Mas estatísticamente, tudo isso aí pode acontece.
Repita esse mantra até se convencer!

terça-feira, 9 de junho de 2015

Intolerância a lactose em bebês? Provavelmente não!

Com certeza você já leu na web a palavra lactose. Dieta sem lactose. Iogurte sem lactose. Mas o que é lactose? Seria bom tirar das crianças também?

Lactose é um dos carboidratos do leite. A grosso modo, um açúcar presente em leites. 

Leite materno, por exemplo, tem muita, muita lactose.

Nosso corpo, para digerir esse açúcar, usa enzimas que estão presentes no nosso organismo. Essas enzimas moram nas vilosidades intestinais. Vou mostrar:

Lindas vilosidades no enterócito - isso é uma foto de dentro de um intestino!

Pra ficar mais simpático, desenhei! Eu sei, sou melhor nutri que desenhista....


Quando um bebê está tranquilo, vivendo a vida bebelística, a lactose é uma benção pra ele. É sim. Lactose, quando é “quebrada” pela enzima, vira galactose e ajuda constituição de galactopeptídeos integrantes do sistema nervoso central. Ela também ajuda a acumular água livre para reserva de termo-regulação, através da sudorese. Já viu como bebês suam?

A lactose também está associada à acidez das fezes e à formação da microbiota intestinal específica (predominância de lactobacillo e bifidobacteria, probióticos, o must da saúde atualmente), o que pode ser importante para impedir o crescimento de bactérias indesejáveis no intestino do seu bebê, além de favorecer a absorção do cálcio, fósforo e de outros minerais


Mas existe a intolerância a lactose.

Bom, mas se no leite humano, o específico para bebês, tem uma porção de lactose, seria humanamente impossível que todos ou a grande maioria dos bebês fossem intolerantes, certo? A natureza não ia errar tanto assim.

Certo. Certíssimo. Intolerância à lactose primária, a comum, dessas de adultos (que tomam leite e saem correndo pro banheiro), é realmente (muito, muito) difícil aparecer em crianças. Lactose é feita para humanos novos. Estamos programados pra isso. Existe sim, um pequeno percentual da população que tem intolerância à lactose congênita, mas se for seu caso, você já saberia. A Deficiência Congênita é uma manifestação extremamente rara e herdada geneticamente, sendo autossômica recessiva. Resulta de uma modificação do gene que codifica a enzima lactase, cuja incidência é de 1:60.000 (MATTAR e Mazzo, 2010). Se for o caso do seu filho, provavelmente você saberia desde muito, muito novinho.

Só que percalços acontecem, e essas mesmas vilosidades podem diminuir. Imagina ações que atacam o intestino: tomar antibiótico, tem uma virose, diarreia, rotavírus. Elas ficam “carecas”.
Vilosidades carecas, menos enzima disponível, lactose passando direto, quase sem absorver!

Durante o tempo que esse bebê ou essa criança recupera a flora intestinal, ele está intolerante a lactose, pois não consegue fabricar mais tanta enzima lactase. Mas isso é passageiro, e é chamada intolerância à lactose secundária. Repito, é passageiro.

Outras situações também atrapalham essa flora ideal. Uma alergia alimentar, por exemplo. Alergia alimentar com sintoma gastrointestinal dá uma judiada na flora intestinal. Imagina uma criança com alergia ao leite de vaca (alergia à proteína do leite de vaca, não à lactose – alergias são reações à proteínas, e não a carboidratos). As proteínas acabam lesionando as vilosidades e a criança ficando não só alérgica, mas também intolerante. E aí, algumas crianças tem diarreias constantes (e outros sintomas) e, ao tirar a lactose, a criança melhora (da diarreia). Aí que mora o perigo da confusão.

A criança melhora porque tiramos o carboidrato que ela não consegue digerir pois não tem enzima pra isso, já que o lugar onde essa enzima estaria não está mais lá. Aí, acontece essa melhora. Mas, se a criança for alérgica, tirar só a lactose não adianta nada. E é extremamente perigoso.... e tem criança alérgica que toma fórmula sem proteína do leite de vaca e com lactose, sabiam? Aptamil Pepti e Althéra são exemplos dessas fórmulas, com proteína extensamente hidrolisada e com lactose.

Mas Karine, se você está dizendo que bebês não tem intolerância à lactose, e as fórmulas sem lactose, pra que servem?

São para bebês com intolerância secundária a lactose. E depois, precisam ser trocadas por fórmulas com lactose. Porque eu não falei, mas a produção dessa enzima é sobre demanda. Se não precisar fabricar lactase, o corpo humano, esperto e econômico que só ele, vai parar de fabricar. Simples assim. Para que o bebê volte a produzir, precisa desse estímulo.

Karine, eu amamento, e percebi que as fezes do meu bebê ainda estão amolecidas após a virose. Acho que ele está com essa intolerância secundária. E agora?

Natureza, sábia natureza mandou o leite materno não só com a lactose, mas também com enzimas e probióticos, substâncias vivas que auxiliam na digestão, e principalmente, na renovação desse lindo enterócito! Continue amamentando sem medo de ser feliz! Essa é a melhor coisa que você pode fazer para o enterócito do seu bebê.

Se seu bebê tem sintomas e você acha que ele tem problema com o leite, procure um gastro (se tiver sintoma gastrointestinal) ou um alergista. Depois, procura uma nutri bacana pra te ajudar com a alimentação. Diagnóstico errado, indicação de produto errado pode atrapalhar muito a vida de quem tem que tomar cuidados especiais com a alimentação!

Portanto, mães de bebês sem alergias com sintomas gastrointestinais, aproveitem a lactose! Ela foi feita pra eles também ;)

P.S. estamos falando de lactose de leite materno e de fórmula infantil. Nada de leite de vaca para menores de um ano ;)

P.S. 2: mais um motivo pra amamentar ;) 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Vilarejo - é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança

Diz um ditado africano: É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança



Vivendo entre essa  toda a sorte de mães,pais e famílias, mais a gente percebe tão rica é a vida da maternagem, e quão desafiadora ela pode ser. Quando li esse ditado, achei que nada fazia mais sentido. Já vi minha mãe comentando: tive duas filhas e não era assim, eu dava conta. Mas também lembro claramente que, por exemplo, quando minha irmã mais nova nasceu, fui transferida por cima do muro para a casa da vizinha, e lá fui muito bem cuidada até minha mãe voltar com o novo pacotinho que tinha minha irmã.

Depois cresci em um bairro onde as pessoas se ajudavam muito. Eu, por exemplo, aprendi a cozinhar com minha vizinha. Visita das tias eram comuns e, mesmo meus pais trabalhando muito, existia uma comunidade para ajudar a cuidar de mim, da minha irmã.

Hoje, você sabe: não é mais assim. Tenho um vizinho de porta que tem um bebê de um ano aproximadamente. Eu nunca troquei uma fralda dele. Nunca cozinhei pra mãe dele. Eu mal conheço seus pais. Nada além do bom dia e do boa tarde do elevador.

Percebi que a gente perdeu conexões que auxiliariam a cuidar dos nossos filhos. Nossas conexões agora são virtuais – a troca de mensagens nos grupos do facebook, no whatsapp. Palpites, conversas, mas não tem a ajuda em si. E a gente tem dúvida, né? A gente queria um apoio. A gente se preocupa. Se preocupa bastante

Na ordem da preocupação das mães, coloco a alimentação no topo delas. Não estou dizendo que todas as mães são naturebas ou se preocupam se a criança está comendo segundo as últimas indicações do protocolo. Estou falando da preocupação visceral: está comendo?  Está nutrido? É o suficiente para sua nutrição? Está crescendo saudável (seja na barriga ou fora dela?)

No consultório de nutrição, a gente fala das indicações, claro, mas fala muito dessas questões profundas. Como fazer meu filho ter um bom relacionamento com aquilo que o nutre? Pode ser na amamentação, na alimentação na saúde ou na alimentação na doença. E atender no consultório, eu e a paciente, eu e os pais e o paciente, é legal pra caramba. O máximo, posso dizer. A essência da hashtag #lovemyjob. Mas às vezes, eu enxergava questões, que dentro do trabalho do consultório, eu não poderia auxiliar.

Não fazia parte do escopo. E aí, aquela família ia pra casa e eu sabia, dava pra oferecer mais, se eles quisessem. Dava pra fazer uma aldeia. Dava pra fazer um Vilarejo!

E aí, nasce esse lugar, essa junção de serviços pensando em tudo o que poderíamos fazer para cobrir essa preocupação da nutrição, tudo o que  passava pela minha cabeça e da minha querida sócia, Juliana, mãe de dois.

 Um cardápio com receitas ajudaria? Um atendimento de introdução alimentar com receitas? E se esse atendimento fosse em grupo, para as mães poderem aproveitar não só a aula, mas a companhia delas? Que tal se você pudesse receber em casa produtos saudáveis já com receitas, sem precisar passar horas no mercado? E a amamentação? Se tivesse uma consultora de prontidão em cada espaço de São Paulo? E se tivesse uma pessoa para ajudar a puérpera, tipo uma vizinha especializada? E se a comida pudesse chega pronta para eu ficar com meu filho?

Tem tudo isso aí. E tem mais, tem parceira com gente do bem, gente como a gente, mães como a gente. Parceria se você quiser benefícios na escola do seu filho, tem a  nossa querida culinarista, mãe de um sortudo garoto chamado Dudu, que vem lá da terra do R puxado de vez em quando ajudar e ensinar alguma coisa pra gente.


A gente quer filhos fortes, peitos fartos de amor, frutas em qualquer quintal. São nossos sonhos semeando o mundo real. E a gente garante muito amor, para quando você for!



O blog continua. O consultório continua. Tudo continua. E com mais.

Beijo grande

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Por que eu me preocupo com alimentação complementar – ou por favor, pare com “eu dei e não morreu”



O futuro está chegando cada vez mais rápido. Nunca tivemos tanta informação em tão pouco tempo. Na alimentação então... trinta anos foram o suficiente para mudanças drásticas em relação a várias orientações (principalmente o que se detém a alimentação complementar)
E hoje, mais do que nunca sabemos que a chave mestra para a prevenção de doenças está no nosso hábito e estilo de vida.

Faremos então, um exercício. Observe sua família, e veja se alguma história de doença se repete. Diabetes, hipertensão, doenças crônicas que são sim, parte genéticas. Câncer também. Existe um padrão? As pessoas mais velhas da sua família tomam medicamentos? Existe também um padrão em relação a quando essas doenças apareceram? E na família do seu companheiro(a)? Provavelmente, você descobriu algum padrão de saúde.

A parte “boa” das doenças genéticas é que podemos tentar, ao máximo, prevenir. Ou atrasar sua manifestação. E você já sabe, seu vizinho já sabe, o Globo repórter já sabe – comer bem, ou comer com alguma individualização faz parte dessa prevenção.

Nossas crianças, que nasceram há pouco tempo, terão a expectativa de vida maior que a minha, que a sua. Poderão viver 100 anos. Se adoecerem com 50 anos, metade de suas vidas precisarão lidar com as doenças. Quando falamos em prevenção de doenças, o efeito não vem agora. Vem com os anos. Por isso o papo de “dei e não morri” ou “sempre comi e estou viva” não é exatamente o que cabe nessa reflexão.

Estamos falando de algo mais profundo, de nutrigenômica. Nutrigenômica é a ciência que estuda a influência dos nutrientes na expressão dos genes e como eles regulam os processos biológicos. Explicando melhor, é a relação do que comemos com o que nosso organismo pode expressar, segundo nossa genética (por isso, nosso histórico familiar). Podemos escolher alimentos conforme o que queremos prevenir.  Se meu pai tem diabetes, tenho uma tendência a ter. Como posso me alimentar a fim de prevenir essa doença?


Por isso, a busca da alimentação equilibrada é tão, tão importante para nós, mães. Por isso o cuidado com a alimentação complementar, visando entregar esses nutrientes especiais e principalmente, formando aquele paladar bacana que vai continuar aceitando todos aqueles alimentos coloridos que a gente quer servir diariamente. Por isso, cada alimento tem seu momento, sua hora. Mesmo os mais saudáveis. Até a fruta, alimento saudável, tem sua hora para ser entregue para uma criança. Por que outros alimentos industrializados também não teriam?

Investir em uma alimentação complementar bacana, evoluindo textura sempre, quando a criança está geralmente bem disponível a aceitar é necessário. Para a saúde dos nossos filhos. Para a nossa felicidade enfim. Afinal, algum doce, biscoito, pode ter sua hora, sua frequência. Mas definitivamente, espere seu filho crescer. Não custa nada, e os benefícios são assim... enormes!

Vai ter bebê comendo nabo sim! E se reclamar, vai ter dois!